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REPORTAGENS


As maravilhas de Bariloche

O famoso destino turístico argentino recebeu milhares de turistas brasileiros este ano


Redação Tupinitango

10/10/2002

Paisagens incríveis espremidas entre montanhas nevadas e lagos enormes de águas geladas. Assim é Bariloche, ou melhor, Brasiloche, apelido dado à cidade na temporada de inverno por causa dos numerosos turistas brasileiros.

O primeiro impacto vem sem ainda sequer ter chegado ao lugar: a vista da janela do avião, ao se aproximar da cidade. Para quem está acostumado a terras tropicais, a paisagem das montanhas cobertas de neve é algo impressionante.

O segundo impacto é sentir o frio andino ao sair do aeroporto. Não se surpreenda se a temperatura estiver próximo de zero grau durante o dia mesmo, com o sol brilhando e céu azul. Por isso, é fundamental levar fora da mala o casaco mais grosso que você tiver e um par de luvas de couro. Sim, de couro, porque as luvas de lã, por melhor que sejam, não têm o menor efeito com o frio de Bariloche.

Procure hospedar-se no centro da cidade, o mais próximo possível do Centro Cívico, pois é nesta região que está o comércio, os restaurantes e principais boates. Não faz muito sentido ficar isolado nesta cidade, a menos que você queira mesmo ficar em um retiro espiritual. Mas definitivamente não é este o estilo de Bariloche.

Depois do check-in no hotel, o próximo passo é alugar o seu kit de sobrevivência: uma roupa especial para a neve, a menos que você tenha levado uma. No centro da cidade existem várias delas, próximas ao Centro Cívico e aos principais hoteis da cidade. Suas roupas de frio, mesmo as mais grossas, serão inúteis para andar na neve e para esquiar. Por mais grossas que sejam, você ainda vai sentir frio e vai se molhar todo com a neve. Deixe seus casacos de couro e outras roupas mais elegantes para sair a noite pelas boates ou restaurantes da cidade. O kit-sobrevivência sai por cerca de $50 a semana, um preço mais do que justo. Além de casaco e calça de nailon impermeáveis, o kit vem também com botas para neve, luvas de esqui e óculos de sol. Sim, você vai precisar disso, porque a claridade da neve incomoda os olhos. Nem pense em caminhar na neve de sapatos comuns ou de tênis, pois o tombo é certo.

Pronto, você já tem condições de sobreviver. O próximo passo é comprar alguns pacotes de passeios pelas atrações da cidade. Para conhecer a maioria das atrações, o melhor é ficar lá durante pelo menos uma semana. Geralmente, os pacotes de viagens do estilo passagem-translado-hotel já incluem também um passeio pelo Circuito Chico e outro pelo Cerro Catedral, as principais atrações de Bariloche. Se não inclui, não faz mal, procure uma agência e compre um pacote.

O Circuito Chico é um passeio por algumas atrações que ficam à beira do Lago Nahuel Huapi, que margeia Bariloche. Percorrendo alguns kilômetros de estrada à beira do lago, chegamos à primeira parada: o Cerro (Monte) Campanário. A subida é feita com aerosillas (teleférico de cadeirinhas). Chegando lá em cima, um fotógrafo estará pronto para tirar uma foto sua saindo do teleférico. Não perca esta oportunidade e autorize a foto, porque ela será provavelmente uma das mais incríveis que você já tirou. Não é algo muito barato, custa cerca de $10 a foto de tamanho ampliado, mas vale a pena. O simpático fotógrafo pedirá pagamento antecipado e também o seu nome, hotel e número do apartamento para que ele possa deixar a foto depois de revelada. Pode confiar, ele realmente vai deixá-la no seu hotel. No topo do Cerro Campanário a vista é deslumbrante. O encontro das inúmeras montanhas cobertas de neve com os lagos são um convite irresistível às fotos. Prepare-se, pois o vento no topo desta montanha é forte e faz a sensação térmica cair muitas vezes para abaixo de zero.

A segunda parada do Circuito Chico é a simpática igreja de madeira próxima ao hotel Llao Llao, o mais sofisticado da região. No lugar também há sempre um cão da raça São Bernardo pronto para tirar uma foto contigo. Mas claro, ele tem dono e você terá que pagar pela foto.

A terceira e última parada é o hotel Llao Llao (pronuncia-se "xau xau"). Este hotel é o mais isolado da região, fica bem próximo das montanhas e é o mais caro. A desvantagem é estar muito distante do centro da cidade e por isso é indicado somente para quem quer tranquilidade.

O Cerro Catedral é o principal centro de esqui da cidade. Fica um pouco afastado do centro, e é alcançado depois de alguns kilômetros de estrada sinuosa e muitas vezes coberta de neve. A estação de esqui conta com uma boa infra-estrutura. Há um teleférico fechado, no estilo do que tem no Pão de Açúcar do Rio de Janeiro, para os que desejam subir a montanha sem roupa especial para neve. Se estiver sem bota de neve, tome cuidado com os tombos. No topo da montanha há algumas lanchonetes e boas paisagens para tirar foto, mas o melhor é subir já com equipamento e roupas de esqui.

Para ter acesso às pistas de esqui, é necessário comprar um passe de meio dia ou de dia inteiro. O Cerro Catedral conta com algumas empresas que cuidam do aluguel dos equipamento de esqui, das aulas e dos passes. Cada empresa têm suas próprias pistas independentes. Se você não sabe esquiar e quer aprender, a melhor coisa é comprar o pacote 90 da empresa Alta Patagônia, que inclui o aluguel do equipamento de esqui, o passe de um dia e aula introdutória. A aula é feita em grupos de cerca de 10 pessoas e se aprende o básico: tirar e colocar o esqui, deslizar, freiar e fazer curva. Tudo isso no plano e depois com uma inclinação mínima. Não se preocupe, os tombos serão inevitáveis e a diversão é garantida. A sensação de esquiar é indescritível, não dá vontade de parar. Existem pistas de nível intermediário, com uma inclinação bem mais acentuada. Ao ver criancinhas inocentes descendo com facilidade estas pistas, não tente fazer o mesmo, ao menos que já tenha uns dois ou três dias de aulas. Mesmo assim, acostume-se aos tombos, elez fazem parte do aprendizado e da diversão. Uma outra opção é descer as montanhas fazendo snowboard. Para este esporte, as pistas e as empresas que vendem passes e equipamentos de esqui são as mesmas, e também existem aulas.


Na base do Cerro Catedral há um charmoso shopping com lojas de artigos de inverno e lanchonetes. Há também ao lado do shopping alguns bons restaurantes. Não deixe por nada de provar os deliciosos chocolates e alfajores.

Um dos passeios mais interessantes do Cerro Catedral é feito de quadriclo, para duas pessoas. O guia leva o grupo, de quatro ou cinco duplas, em fila indiana para percorrer durante cerca de uma hora algumas trilhas da região. O rally passa por riachos, trechos cobertos de lama e pequenos lagos. O esperto guia, como o do Cerro Campanário, também se oferece para tirar algumas fotos suas no passeio em meio à lama. Não deixe de comprá-las, pois é certo que fiquem muito bonitas.

Uma outra atração de Bariloche é Piedras Blancas, uma região com pistas de trenó (ou no linguajar popular, "skibunda"). É uma das atividades mais divertidas da região. O trenó é na verdade uma pequena prancha de plástico, parecida com pranchas de natação, mas com uma haste no meio dela para guiar e manter o equilíbrio. A subida até o topo da pista é feita de teleférico. São três pistas com traçado diferente. É só sentar na prancha que ela começa a ganhar uma incrível velocidade. As curvas não são tão fáceis de se fazer e por isso prepare-se para rolar bastante pela neve. É diversão garantida.

O Cerro Otto é provavelmente uma das atrações mais próximas do centro da cidade. Por isso, n
ão é necessário comprar um pacote para chegar até ele. Existe um serviço de ônibus que liga regularmente o lugar ao centro da cidade. A subida é feita em um pequeno teleférico fechado para duas pessoas. No topo, um agradável surpresa: há um restaurante de formato circular e que gira, literalmente. No formato mais ou menos de um disco voador, ele tem um motor que faz o piso dar uma volta completa em 20 minutos. Desta maneira, é possível sentar em qualquer mesa sem perder nenhum detalhe da deslumbrante paisagem da região.

Os passeios periféricos são uma atração à parte. Um dos mais incríveis é o passeio pela Isla Victoria, uma das ilhas do lago Nahuel Huapi. O lugar tem um lindo bosque de Arrayanes, árvores que compõem uma paisagem de conto de fadas.

Otro passeio interessante é de catamarã até Puerto Blest. O passeio começa na pequena estação de barcos próxima ao hotel Llao Llao e percorre grande parte do lago Nahuel Huapi. Dura um dia inteiro. A parte de cima do catamarã é descoberta e é mais agradável para tirar fotos e observar a paisagens. Vá com roupa impermeável e bota de neve, porque o vento é forte e o frio é de rachar. Puerto Blest tem um pequeno hotel, onde é feito o almoço do passeio. Há também uma lanchonete. A segunda parte do passeio é seguir de barco, a partir de Puerto Blast, até o lado oposto da margem do lago. Subindo uma longa escadaria de madeira coberta de gelo e neve - um belo convite aos tombos - em meio às cachoeiras, muitas vezes congeladas, surge uma das paisagens mais lindas da região: o lago Los Cantaros. O lago passa boa parte do inverno completamente congelado. Ao lado está uma árvore antiquíssima, com centenas de anos, uma verdadeira atração turística da região. O passeio até Puerto Blest pode ser extendido até Puerto Frias, percorrendo um pequeno trecho de ônibus e depois de barco cruzando o lago Frias, de águas incrivelmente verdes. Puerto Frias não tem nenhuma atração turística em especial, exceto um campo de futebol completamente tomado de neve. O lugar está a apenas 2Km da fronteira com o Chile, e por isso é possível extender o passeio até Puerto Montt, no lado chileno.

A noite em Bariloche é uma atração à parte. As boates, como a Rocket e a Cerebro, são incríveis e costumam começar a enchar somente a partir das 2 ou 3 da manhã. Bariloche é um destino comum das viagens de egresados, ou seja, viagens de formatura dos estudantes de segundo grau. Por isso, é muito comum ver ônibus de turismo circulando pela cidade abarrotados de ruidosos adolescentes de 17 anos. Eles estão por toda a parte, principalmente nas boates. Caso prefira ficar distante deles, existem opções mais tranquilas, como restaurantes e bares. Um dos restaurantes mais famosos é o Familia Weiss, que fica às margens do lago. Além de lindo, tem uma das melhores trutas da região. O La Marmita, apesar do nome soar estranho, é muito aconchegante e ótimo para ser curtido a dois. Tem o melhor fundue da cidade. Percorrendo as ruas do centro, não deixe de conhecer também as lojas de chocolate Fenoglio e Casa del Turista. Não se iluda e esqueça a sua dieta: você não resistirá à delícias
- cheias de calorias, é claro - como o alfajor de doce de leite da Fenoglio. Será um pecado não provar pelo menos um. Não deixe de provar também as deliciosas empanadas argentinas. Por apenas $1, em qualquer lanchonete ou restaurante se come uma.

Bariloche até 1998 era um destino muito popular entre os brasileiros. Com a desvalorização do real, estes praticamente sumiram da Argentina, já que este se tornou um país extremamente caro. A desvalorização do peso argentino em 2002 trouxe de volta os brasileiros ao país. Por isso, se você não fala espanhol, não se desespere: com a volta dos turistas brasileiros, quase todos os guias de turismo e vendedores de loja falam portunhol. Ao entrar em uma loja, não precisa nem abrir a boca. Os vendedores já percebem que você é brasileiro e vão tentar te vender alguma coisa arranhando um português.

Muita neve, muitas guloseimas, muita gente bonita e muita badalação. Assim é Bariloche.

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