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Um
negócio bilhonário
O potencial turístico do Brasil e da Argentina poderia
ser melhor explorado
Redação
Tupinitango
10/10/2002
Os números do turismo como atividade econômica impressionam.
É a atividade que mais cresceu no século XX. É
o setor que mais emprega e gera divisas no mundo. O turista quando
chega a um lugar, traz e gasta uma quantia em dinheiro que antes
não existia no país. Por isso, o turismo pode ser
considerado como uma exportação, e traz ao país
mais divisas que qualquer outro setor. Está à frente,
por exemplo, da indústria automobilística, de produtos
químicos do petróleo e de alimentos.
O país que mais recebe turistas no mundo é a França.
Justiça seja feita. Não é de se estranhar que
o charme de Paris, a agitação de Saint-Tropez no verão
europeu e a beleza do interior deste país cheio de palácios
e castelos consiga atrair mais turistas que qualquer outro país
do mundo. O vice-lider é a Espanha. A terra da tourada, das
castanholas e da paella conseguiu um grande aumento na recepção
de turistas após as olimpíadas de Barcelona, em 1992.
O evento serviu como garoto-propaganda da Espanha para o mundo.
O Brasil e a Argentina são países que têm imenso
potencial turístico, mas o exploram mal. O Brasil recebeu
em 1999 apenas 5 milhões de turistas, e é o 29o colocado
no ranking da OMT (Organização Mundial do Turismo),
atrás de países como Malásia e Turquia. Os
turistas deixaram neste ano cerca de US$4 bilhões. A Argentina
recebeu neste ano cerca de 3 milhões de turistas, que deixaram
no país US$ 2,9 bilhões. São números
muito pequenos diante dos 657 milhões de turistas que cruzaram
o planeta neste ano. Para comparar, Portugal, um país com
tamanho equivalente à metade do Uruguai, recebeu 11,5 milhões
de turistas. A líder França recebeu 76 milhões
de turistas, que deixaram no país US$ 33 bilhões,
oito vezes mais que os turistas extrangeiros deixaram no Brasil.
O México recebeu 18 milhões de turistas.
Como podem dois países com tantos atrativos terem uma parcela
tão pequena do turismo mundial? Atrativos não faltam.
O Brasil tem as belezas naturais do Rio, a Amazônia, 8.000Km
de praias e carnaval. A Argentina, tem o charme de Buenos Aires,
as estações de esqui, a patagônia e os glaciares.
Nada disso foi suficiente para atrair mais turistas extrangeiros.
A principal causa do baixo número de turistas estrangeiros
é a grande distância que separa o Brasil e a Argentina
dos países ricos que são os grandes centros emissores
de turistas do mundo: os Estados Unidos, a Europa e o Japão.
A distância da origem ao destino é o primeiro critério
da decisão de um turista, principalmente porque ele sabe
que quanto mais longe o destino está, mais cara será
a viagem. Isto explica por que os americanos preferem o caribe quando
pensam em praia e os europeus vão para as praias do sul de
Portugal, da Espanha e das ilhas do Mediterrâneo. Isso explica
também porque a maioria dos turistas que visitam o Brasil
(59%) e a Argentina (77%) são da própria América
Latina. 93% dos turistas que visitam a França são
europeus. A grande maioria dos turistas extrangeiros que visitam
o México são americanos, seus vizinhos de fronteira.
Uma outra explicação é a renda média
habitantes dos países vizinhos. O Brasil e a Argentina, além
de serem países de baixa renda média, também
estão cercados por países em condições
iguais ou piores. Somente uma pequena parcela da população
latino-americana tem dinheiro para viajar para o exterior. A maior
parte está preocupada em pagar o aluguel ou, pior ainda,
preocupada em sobreviver. Neste ponto, os países europeus
levam ampla vantagem. A França e a Espanha estão cercados
por países de altíssima renda média, e por
isso levam a melhor.
O potencial de turismo bilateral entre o Brasil e a Argentina é
imenso. Se considerarmos apenas os 10% mais ricos da população
brasileira, estamos falando de 17,5 milhões de turistas potenciais
para a Argentina, com uma renda média equivalente à
dos italianos. Em 1999, foram apenas 450 mil turistas brasileiros
na Argentina, apenas 0,25% da população brasileira.
Da mesma forma, os 20% mais ricos da população argentina
são 7,5 milhões de turistas potenciais para o Brasil,
e que detêm cerca de 60% do PIB argentino. Em 1999, foram
1,5 milhões de turistas argentinos no Brasil, cerca de 4%
da população da Argentina. Trocando em miúdos:
com uma boa campanha de turismo, o Brasil poderia multiplicar por
5 o número de turistas argentinos em seu território,
e a Argentina poderia multiplicar por 38 o número de turistas
brasileiros.
O turismo entre o Brasil e a Argentina sempre foi relativamente
grande e tem estado diretamente relacionado ao câmbio monetário
vigente. Até 1999, o turismo entre os dois países
era mais ou menos equilibrado. Após a desvalorização
do real, os brasileiros sumiram da Argentina e os argentinos passaram
a viajar muito mais para o Brasil. Com a desvalorização
do peso em 2002, os brasileiros passaram a ter câmbio favoravel
e voltaram a visitar a Argentina. Os argentinos, no entanto, viraram
raridade no Brasil neste ano, fato que se explica também
pela crise econômica que vive o país.
Em 1999, os argentinos eram os que mais visitaram o Brasil, sendo
30% do total dos turistas extrangeiros. Em segundo lugar, vieram
os americanos com 11%, seguidos pelo paraguaios (10%) e uruguaios
(7,6%). Levando-se em conta o continente, são latino-americanos
os que mais visitam o Brasil (59%) seguidos pelos europeus (24%),
norte-americanos (12%), asiáticos (2%) e outros continentes
(3%). Neste ano, os turistas deixaram US$4 bilhões no Brasil.
As cidades mais procuradas por turistas estrangeiros no Brasil neste
ano foram: Rio de Janeiro (32,5%), Florianópolis (17,7%),
São Paulo (13,7%), Salvador (12,7%) e Foz do Iguaçu
(11,8%). Entre os argentinos, os destinos mais populares são
Florianópolis, Camboriú, Rio de Janeiro, Búzios
e Porto Seguro.
Também em 1999, foram os chilenos os que mais visitaram a
Argentina (19%). Em segundo lugar vieram os paraguaios (18%), seguidos
pelos uruguaios (18%) e brasileiros (16%). Levando-se em conta o
continente, os latino-americanos são maioria entre os turistas
extrangeiros (77%), seguido pelos europeus (11,6%), norte-americanos
(9%) e outros continentes (2,4%). Neste anos, os turistas deixaram
US$2,9 bilhões na Argentina. As cidades mais procuradas por
turistas brasileiros na Argentina são Buenos Aires, Bariloche
e Las Leñas.
O estímulo do turismo entre o Brasil e a Argentina é
fundamental para a economia dos dois países. Suas atrações
turísticas se complementam. Os principais atrativos do Brasil
(praias, Amazônia e carnaval) não têm paralelos
na Argentina. Da mesma forma, os principais atrativos da Argentina
(Buenos Aires, estações de esqui e glaciares) não
tem paralelos no Brasil. Por isso, pode-se considerar que brasileiros
e argentinos não concorrem no turismo. São sócios.
Além das atrações turísticas que se
complementam, há também a vantagem da proximidade,
que influi diretamente no preço da viagem. Uma outra vantagem
é o câmbio vigente. Após a desvalorização
de suas moedas, o Brasil e a Argentina passaram a ser países
muito mais baratos que outros da região, como o Chile e o
México. Apesar da pouca distância, não se pode
desprezar o fato de que Buenos Aires está a cerca de 1.500
Km de Florianópolis, 2.600 Km do Rio de Janeiro e 4.300Km
de Salvador. Não é tão perto assim, se levarmos
em conta que a distância entre Lisboa e Madri é de
apenas de 400 Km. Os europeus levam outra vantagem com relação
aos meios de transporte. Pode-se percorrer toda a Europa de trem
com conforto e eficiência. Na América do Sul, este
é um meio de tranporte muito pouco utilizado e existem pouquíssimas
linhas de passageiros. Grande parte dos argentinos que visitam o
sul do Brasil vão de automóvel ou de ônibus,
o que torna a viagem muito mais barata. Os brasileiros do sul também
costumam visitar Buenos Aires de ônibus. Para visitar regiões
mais ao norte do Brasil, entretanto, é inviável para
os argentinos ir por terra, e por isso preferem ir de avião.
O mesmo pode-se dizer dos brasileiros do Rio de Janeiro e São
Paulo quando vão para a Argentina. Um grande complicador
neste caso é o preço da passagem aérea. As
empresas que têm rotas entre cidades brasileiras e argentinas
cobram em dólar as passagens, até mesmo as empresas
da própria região, como Varig, TAM e Aerolineas Argentinas.
Uma alternativa para a falta de turistas extrangeiros têm
sido o crescimento do turismo interno. Tanto o Brasil como a Argentina
têm grandes dimensões territoriais e paisagens muito
diversas. Após a desvalorização do real, em
1999, o número de viagens de brasileiros para o exterior
despencou e estes passaram a escolher destinos dentro do próprio
Brasil. Da mesma forma, com a devalorização do peso
em 2002, os argentinos passaram a viajar mais dentro da Argentina.
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