Redação
Tupinitango
10/10/2002
"La fecha era especial, cumpleaños
de mi yerno. Los invitados empezaron a llegar temprano a la cena.
Por largos ratos me quedé mirandole a una chica medio rara
que estaba cerca. Rubia, delgada, pelos largos, un poco más
chica que yo, vestía una musculosa y una falda roja. Usaba
ojotas y gafas. Tenía un vaso de gaseosa en la mano y en
la otra una pipa. En su cuello habían varias picaduras.
Me acerqué a ella, pero se enojó y me dijo que su
novio era celoso y que iba a pegarme si no me alejara pronto.
"
O
texto acima, quando lido por alguém que não tem
noções de espanhol, pode parecer um tanto quanto
estranho. Foram usadas muitas palavras que podem confundir o leitor.
Vamos à tradução:
"A
data era especial, aniversário do meu genro. Os convidados
começaram a chegar cedo no jantar. Por longos momentos
fiquei olhando para uma garota meio estranha que estava perto.
Loira, magra, cabelos compridos, um pouco mais baixa que eu, vestia
uma camiseta regata e uma saia vermelha. Usava chinelo e óculos
de sol. Tinha um copo de refrigerante na mão e na outra
um cachimbo. No pescoço dela haviam várias picadas.
Me aproximei dela, mas ela ficou com raiva e me disse que o namorado
dela era ciumento e que ia me bater se eu não me afastasse
logo."
Quem nunca ouviu histórias engraçadas e micos incríveis
de gente que pensava que conseguiria arranhar um portunhol numa
viagem à Argentina ou ao México? Todo brasileiro,
por definição, acha que o espanhol é um idioma
muito fácil e que se sairia bem na hora que tivesse que
se comunicar neste idioma. Não é bem assim. O espanhol
e o português são, sim, idiomas muito parecidos,
mas é exatamente aí onde mora o problema. Existe
um número incrível de palavras iguais ou muito parecidas
nos dois idiomas, mas que têm significados completamente
diferentes. São os chamados falsos cognatos. No texto,
por exemplo, alguém poderia traduzir "en su cuello
habían varias picaduras" para "em seu coelho
haviam varias picas duras", uma coisa realmente muito estranha.
Mal saberia que se tratavam apenas de inocentes picadas de mosquito
no pescoço da moça.
Quando o assunto é comida, o bicho realmente pega. Os cardápios
normalmente não têm tradução e os carrancudos
garçons não são bilíngues. O mico
é quase certo. O "pollo" não é
bolo, é frango. O "pastel", na parte de "postres"
(sobremesas), não se trata de nada frito, mas bolo. E as
frutas? Alguém se atreve a pedir suco de "frutilla"?
Trata-se apenas de morango. "Sandía" parece marca
de frango empanado, mas é melancia. "Ananá"
parece ser alguma fruta exótica dos Andes, desconhecida
dos brasileiros, mas não passa do mais-do-que-manjado abacaxi.
Verduras? Que tal um pouco de "lechuga"? Pode parecer
algum derivado do leite, mas é só alface.
Existem também muitas palavras que existem nas duas línguas
com o mesmo significado, mas que em uma se usa formalmente e na
outra informalmente. Por exemplo, "machucar" existe
nas duas línguas e é usado normalmente no português,
mas no espanhol só é usado muito informalmente,
sendo mais usado "lastimar". A palavra "acontecer",
tão comum no português, só é usado
muito formalmente no espanhol e "pasar" é mais
usada para isso. Da mesma forma, "despertar" é
usado no espanhol com o mesmo significado que têm esta palavra
no português, mas neste idioma ela soa formal e é
normalmente substituido por "acordar".
Existem outros complicadores. Um deles é a pronúncia.
O espanhol é um idioma extremamente pobre em fonemas comparado
com outros idiomas latinos e anglo-saxônicos. Não
existem fonemas nasais (como em "ã"), o som do
"v", do "j", do "s" fibrante (o
som do "z") e das vogais abertas ("ó"
e "é"). Os hispanoparlantes têm grande
dificuldade em pronunciar estes fonemas se não tiveram
contato com eles desde cedo. Somente crianças de até
5 ou 6 anos conseguem assimilar com perfeição os
fonemas de um idioma, e isso explica por que pessoas bilíngues
não têm qualquer sotaque se tiveram contato com os
dois idiomas quando eram pequenas. A dificuldade de pronúncia
do português por hispanoparlantes é levado ao extremo
quando se tratam das vogais abertas. Eles não consegue
perceber a diferença entre "avô" e "avó"
e só consegue pronunciar "avô", ou seja,
sempre com o som fechado do "o". Para o brasileiro que
está aprendendo espanhol, por outro lado, é bastante
fácil a pronuncia deste idioma, já que todos os
seus fonemas existem no português. O cuidado passa a ser
em tentar "esquecer" os fonemas que não existem
no espanhol, como as vogais abertas.
Um outro complicador são os heterotônicos, que são
as palavras que se escrevem igual ou muito parecido nos dois idiomas,
têm o mesmo significado, mas que têm sílabas
tônicas diferentes. Por exemplo, "oceano" em espanhol
("océano") têm sílaba tônica
no "e". Da mesma forma, "elogio" em espanhol
tem sílaba tônica no "o".
Todos estes detalhes são fácilmente assimilados
com um bom curso de espanhol. Não subestime a utilidade
do aprendizado deste idioma, nem pense que poderá "arranhar"
um portunhol quando na verdade precisa aprender realmente um novo
idioma. Lembre-se sempre que, apesar das semelhanças, o
espanhol é um idioma estrangeiro e precisa ser estudado
como qualquer outro.