Redação
Tupinitango
10/10/2002
"A
força em inglês e espanhol", diz
a propaganda de uma escola de idiomas em um outdoor da Av. Presidente
Vargas, uma das mais movimentadas do centro do Rio de Janeiro.
"Español a la mitad del tiempo" diz a propaganda
ao lado. Cenas como esta se tornaram comuns no Brasil desde o
início do Mercosul.
A procura por cursos de espanhol teve grande crescimento entre
os brasileiros à medida que cresceu entre a população
a percepção a importância estratégica
deste idioma. Processo semelhante aconteceu com o ensino do português
na Argentina.
O inglês sempre foi e continua sendo o idioma estrangeiro
mais estudado em ambos os países. Em um mundo cada vez
mais globalizado, este é o idioma universal, que por fatores
históricos - o imperialismo inglês e posteriormente
o americano - é aprendido e falado nos quatro cantos do
planeta. No mercado de trabalho, o domíno desta língua
deixou de ser um diferencial e passou a ser pré-requisito.
Trocando em miúdos: quem não a domina, fica de fora.
O mercado de trabalho passou a ficar cada vez mais competitivo.
Se falar inglês não é mais diferencial, a
procura por um segundo idioma extrangeiro é cada vez mais
comum no Brasil e na Argentina. Com a consolidação
do Mercosul, é mais do que natural que o espanhol e o português
sejam este segundo idioma. O
estudo do português na Argentina e do espanhol no Brasil
é fundamental também para a integração
cultural do Mercosul. As músicas, por exemplo, se tornam
muito mais atraentes quando entendemos suas letras.
O Brasil, sendo o único país latino-americano que
não fala espanhol, é considerado um "caso particular".
É cercado por sete países hispanoparlantes: Uruguai,
Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela.
Apesar desta aproximação geográfica, muitos
acham que os brasileiros sempre deram as costas para a América
Latina e preferem "olhar" para a América do Norte
e Europa. Este distanciamento do Brasil em relação
a América Latina há alguns anos era evidente. O
francês era um idioma muito mais valorizado que o espanhol,
a ponto de ser ensinado nas escolas primárias junto com
o inútil latim. Os cursos de espanhol eram escassos e pouco
procurados. Na Argentina, o francês há alguns anos
também era muito mais valorizado e estudado que o português.
Este cenário mudou muito ultimamente. Os brasileiros parecem
ter percebido a importância do espanhol e da maior aproximação
do Brasil com relação a América Latina. A
procura pelos cursos de espanhol cresceu muito. Como segunda língua
estrangeira, alguns fatores pesam a favor deste idioma em relação
aos outros "concorrentes", como o francês, italiano
e alemão. Além da importância estratégica,
o valor do espanhol no mercado de trabalho no Brasil cresceu muito
também com os pesados investimentos que o país recebeu
da Espanha nos últimos anos, de empresas como a Telefonica,
a petroleira Repsol e os bancos Santander e BBV.
Um outro fator que pesa em favor do espanhol entre os brasileiros
é a facilidade de aprendizado deste idioma em relação
aos outros. O espanhol é o idioma mais próximo do
português, têm gramática e vocabulário
muito semelhantes e por isso os cursos completos duram no máximo
3 anos, bem menos que os 5 ou 6 anos dos cursos de inglês
e francês. Com um ano de curso, já é possível
ter alguma fluência no espanhol, coisa bastante difícil
no inglês ou no francês.
É justamente esta proximidade entre o português e
o espanhol que faz com que alguns brasileiros pensem que o estudo
do espanhol seja desnecessário. Muitos acreditam que conseguem
"enrolar um portunhol" quando precisarem - em uma reunião
de negócios ou em uma viagem, por exemplo - simplesmente
acrescentando "ita" ao final das palavras (como "pessoita"
ou "cervejita"), mas não é bem assim.
É um idioma extrangeiro como qualquer outro e que precisa
ser estudado para se ter alguma fluência.
Entre os argentinos, também há a percepção
de que o português é um idioma de mais fácil
e rápida aprendizagem em relação a outros
idiomas. A importância estratégia do português
também é levada em consideração, já
que o Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina
e vem recebendo muitos investimentos de empresas brasileiras nos
últimos anos. Além disso, fatores quantitativos
pesam em favor do português: apesar de ser o idioma oficial
de apenas um país da América Latina, é falado
por 80% dos habitantes do Mercosul, por 50% dos sul-americanos
e por 34% dos latino-americanos.
Apesar de todo este cenário favorável, ainda existem
preconceitos com relação ao espanhol no Brasil e
ao português na Argentina. Muitos brasileiros torcem o nariz
para o espanhol e o consideram um idioma que soa feio. O mesmo
acontece com o português na Argentina. Estas pessoas normalmente
preferem estudar francês e italiano porque "são
muito mais bonitos", ignorando que estes idiomas têm
muito pouca importância estratégica dentro da América
Latina e o estudo deles, portanto, acaba se tornando apenas um
"hobby". Também parecem ignorar que o português
e o espanhol são idiomas que têm sonoridade, gramática
e vocabulário muito parecidos, além de todas as
outras vantagens que seus aprendizados têm em relação
aos outros idiomas.
A questão da "feiura" de um idioma é polêmica
e pessoal. Um mesmo idioma pode ter sotaques com sonoridades e
vocabulário completamente diferentes dependendo da região.
Algumas pessoas adoram o inglês britânico, mais formal
e com uma sonoridade menos nasal que a do inglês americano.
Outros já preferem o inglês de Nova Iorque, onde
as pessoas mais parecem que falam pelo nariz. No Brasil, muitos
adoram o sotaque cantado dos baianos, e acham feio o dos habitantes
do sul do país. Outros acham o contrário, adoram
o sotaque de gaúchos e catarinenses e odeiam o dos baianos.
Entre os países hispanoparlantes, as diferenças
regionais no idioma também são grandes. Os portenhos
(habitantes de Buenos Aires) falam um espanhol com uma sonoridade
claramente influenciada pelo italiano, trazido pelos imigrantes.
Já o mexicanos falam cantando e os espanhóis tem
outro sotaque diferente. Tudo não passa de uma questão
de gosto pessoal. Dizer que é feio um determinado idioma
é ignorar que ele pode ter belos sotaques de acordo com
a região onde ele é falado. A percepção
dos diferentes sotaques de um idioma geralmente só aparece
depois de algum tempo de estudo e de se ter acostumado melhor
os ouvidos.
A
grande dúvida é saber se no futuro a língua
de Cervantes e a de Camões crescerão ainda mais
em importância e ameaçarão dentro da América
Latina o reinado do inglês. Quem viver, verá. Ou
melhor, "Quien viva, verá".